Apagar as marcas do passado

Margaret Rogers

A praia próxima do meu hotel no sul da Califórnia estava deserta naquela manhã de início de semana. Eu tinha um curto intervalo de tempo, antes dos compromissos do dia, para me deliciar com a beleza do Pacífico e afundar meus pés na areia úmida, enquanto caminhava à beira mar. Quinze minutos depois, enquanto retornava, minhas pegadas já haviam sido apagadas e haviam desaparecido. Essa era a mensagem que eu precisava para aquele dia.No meu trabalho como Praticista da Ciência Cristã, oro regularmente com pessoas que lutam com as marcas de lembranças ruins e com o complexo de culpa. Freqüentemente, essas pessoas temem que nunca possam se livrar de tudo isso. Eu havia sido convidada para dar uma palestra para mulheres internadas em um centro de recuperação de drogados e alcoólatras e o faria mais tarde naquele dia; o tema era encontrar o perdão e um novo começo de vida. Algumas delas já haviam entrado e saído da prisão, diversas vezes, por crimes relacionados a hábitos de longa data. Aquela praia, sem marcas na areia, foi para mim uma promessa renovada de que nós mesmos não somos o poder que remove da consciência os indesejáveis padrões de pensamento e de comportamento. É o poder mais elevado, ou seja, o poder infinito de Deus, o bem, que age em nós. Tudo o que precisamos fazer é continuar caminhando junto ao mar, por assim dizer, próximos da verdade de que nenhuma forma de sofrimento pode resistir à ação sanadora do amor de Deus. 

Para mim, tem sido um privilégio ver as pessoas deixarem para trás passados dolorosos e seguirem rumo a uma nova perspectiva sobre si mesmas, uma vida mais produtiva. Justamente no dia anterior, eu havia conversado com uma mulher que abandonara o alcoolismo e outros hábitos destrutivos, por meio de uma profunda confiança em Deus e de uma compreensão sobre a bondade original dela, como também da de outras pessoas, como a semelhança espiritual de Deus. Ela havia adquirido muita alegria e maior auto-estima. Quando lhe perguntei o que havia sido importante em sua cura, ela respondeu sem hesitar que o primeiro passo crucial foi ser honesta consigo mesma. Ela havia anteriormente resistido a enfrentar o medo e a obstinação que a levaram a beber. Mas, havia percebido que tinha de abandonar o estado de auto-engano em que se encontrava, de que o álcool lhe fazia bem.

Quanto mais eu pensava na ênfase que ela havia colocado na honestidade, mais isso se refletia em minha própria experiência. Muitas vezes, é difícil admitir os erros, até para nós mesmos. Então, quando o fazemos, é comum passar muito tempo em angústia, desejando poder voltar atrás no passado e reviver uma conversa ou uma ação. A maioria de nós, provavelmente, lembra-se de situações que gostaríamos de apagar por completo do roteiro de nossa vida. Contudo, é óbvio que quando enfrento honestamente meus próprios erros, pedindo desculpas e procurando corrigi-los tanto quanto possível, sinto-me aliviada. Mesmo assim, descobri que muitas vezes isso requer mais do que apenas apagar as marcas de uma praia cheia de lembranças desagradáveis.

A Fundadora da Ciência Cristã, Mary Baker Eddy, escreveu sobre três estágios de desenvolvimento mental, que têm sido para mim indicadores úteis, ao orar por mim e pelos que desejam passar uma esponja no passado. Ela descreve esses estágios como:

  • – “um conceito apropriado do pecado”
  • – “arrependimento”
  • – “a compreensão do que é o bem”

Acho que a honestidade para consigo mesmo poderia equivaler ao primeiro estágio de desenvolvimento, a respeito do qual a Sra. Eddy escreve: “É indispensável… o conhecimento apropriado do mal e de suas manobras sutis, pelas quais o mal parece tão real quanto o bem…” (Miscellaneous Writings, Escritos Diversos, pp. 107–108).

As mulheres do centro de recuperação se relacionaram de imediato com esse conceito. Várias reconheceram que as drogas e o álcool não oferecem a libertação e fuga que prometem, muito embora as pessoas se auto-enganem ao acreditar nisso. Portanto, isso é também verdadeiro com relação ao comportamento, não é tão obviamente danoso como o consumo abusivo de drogas ou furto. Por exemplo, quando alguém se sente culpado ou vítima de injustiça, há uma tendência de ficar relembrando, continuamente, seus próprios erros ou o erro dos outros. É importante despertar para o fato de que se apegar mentalmente ao pecado ou à tristeza, como se isso fizesse parte da natureza de alguém, não é mais benéfico do que se afogar na bebida, o que não ajuda a esclarecer a situação, a amenizar a culpa, a aliviar a dor ou a satisfazer a raiva. Uma amiga teve um súbito despertar a respeito desse assunto, ao contar a alguém sua triste história sobre um relacionamento fracassado. A pessoa a ouviu e depois comentou que, afinal, tudo não passava de simples pensamentos. A surpreendente implicação é a de que é sempre possível pensar de maneira diferente.

Portanto, arrepender-se (aquele segundo estágio de regeneração mental) significa mudar nossos pensamentos ou o estado mental. Essa mudança, às vezes, parece quase impossível. Mas ela virá, quando nos volvermos, persistentemente, aos pensamentos de Deus, os quais a Bíblia descreve como “…pensamentos de paz e não de mal…” (Jeremias 29). Uma história triste não pode nos dominar, porque os bons pensamentos de Deus estão sempre presentes e são infinitamente mais poderosos do que os pensamentos humanos. Deus é a verdadeira fonte da consciência. O esforço para nos apegar aos pensamentos que Deus tem sobre a criação, como perfeita, espiritual e inocente, ao invés daqueles de culpa e desespero, nos leva para mais perto de um oceano de bondade que apaga, de maneira irresistível, toda e qualquer marca indesejável.

O ensinamento da Ciência Cristã é específico na questão de que a única maneira possível de se destruir o mal é por meio da compreensão de que Deus é o bem infinito. Esse terceiro estágio de desenvolvimento mental reconhece a Deus como Tudo e todas as criaturas como a manifestação da única perfeição. Isso não deixa nenhum espaço para se temer o mal como realidade nem para crer que ele tenha poder. Mary Baker Eddy encontrou a prova desse ponto, na vida e nos ensinamentos de Jesus: “Nosso Mestre, em sua definição de Satanás como sendo um mentiroso desde o princípio, atestou a absoluta falta de poder — sim, a nulidade — do mal, posto que a mentira, não tendo nenhum fundamento real, é meramente uma falsidade; espiritual e literalmente, é nada” (Miscellaneous Writings, p. 108).

Enfrentar acontecimentos terríveis requer um compromisso firme com uma realidade mais elevada, a fim de aceitar que o mal, sob qualquer forma, é uma mentira. Naquele dia, no centro de recuperação, meu coração compadeceu-se de uma mulher, prestes a dar à luz, cujo marido fora assassinado havia alguns meses. Conversamos sobre Deus como Pai e sobre o fato de que a criança que ela esperava, nunca estaria privada do apoio, da orientação e do amor paternal de Deus. Minhas palavras consoladoras fizeram com que sorrisse, porém, mais tarde, quando mudamos para o assunto de como Deus nos vê a todos como inteiramente bons, ela protestou, dizendo que nunca acreditaria nisso. Como um assassino poderia ser bom? Por que se deveria perdoar alguém que fez algo tão ruim?

Disse-lhe que compreendia como ela se sentia. Mas também lhe contei, com toda honestidade, que a única maneira com a qual consegui seguir em frente, com esperança na vida, foi enfrentando o mal como sendo o mentiroso que Jesus disse que era. Ele nunca permitiu que o ódio ou a aversão ao mal, interferisse com o bem que ele podia fazer a cada dia. Lutou e venceu o mal com a arma mais eficaz que existe, ou seja, o reconhecimento de que o bem é a única realidade. Talvez cada um de nós possa seguir seu exemplo, até certo grau, começando a pensar nos erros do passado, em nossa vida e na dos outros, como uma ilusão que não tem nada a ver com a realidade de Deus, tal como ao despertar de um sonho absurdo.

Há alguns anos, fui encontrar-me com uma amiga e, ao chegar, deparei-me com uma cena de crime horrível. Ela havia sido assassinada. Depois de responder algumas perguntas à polícia, voltei para casa muito abalada. Continuava imaginando coisas horríveis. Lutei contra esses pensamentos o melhor que pude, repetindo estas verdades que havia aprendido na Ciência Cristã: que Deus era o bem e supremo exatamente naquele momento; que a única realidade era o Espírito divino e Sua criação espiritual; que cada indivíduo tem uma vida indestrutível em Deus; que ninguém pode estar, nem por um momento, separado do amor de Deus. Levou algum tempo, mas, gradualmente, essas idéias sobre a Verdade, que é um outro nome para Deus, substituíram as impressões sobre o mal. Os pensamentos de Deus são muito mais poderosos do que pensamentos humanos.

Hoje, à medida que relembro essa experiência, descubro que a cena mental ruim e os sentimentos que a acompanharam não parecem mais tão reais para mim, pela convicção de que minha amiga vive em Deus; que ela sabe que é amada e que está consciente da beleza e da alegria do reino de Deus.

Qualquer pessoa que se volte para a Verdade pode confiar em que os pensamentos de Deus, que são de paz, realmente apagam os pensamentos de mal e seus efeitos negativos. Jesus disse: “Vós já estais limpos pela palavra que vos tenho falado” (João 15). Agora estamos limpos. O Cristo sanador, ou seja, a verdade de Deus conosco aqui e agora, continuará a falar a verdade, tal como o mar continuará a lavar a praia, até que todos saibam que o bem perfeito, espiritual, tem sido sempre a única realidade.

Margaret Rogers, redatora convidada, é Praticista e Professora de Ciência Cristã; vive em Greenbrae, estado da Califórnia, Estados Unidos. 

Fonte: http://www.arautocienciacrista.com/gv/csps/herald/port/arauto11_05b.jhtml
Acesso em: 16/02/2013

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Sobre cienciacristabrasil

A Ciência Cristã ou Christian Science foi descoberta por Mary Baker Eddy em 1866, nas proximidades de Boston, MA, EUA. Baseia-se na vida, palavras e obras de Jesus Cristo. Ela é um movimento religioso global. Está aberta a todos no livro: CIÊNCIA E SAÚDE COM A CHAVE DAS ESCRITURAS, de autoria de Eddy.
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