Moldar o pensamento com o bem

Crédito: © Foto de Arquivo

Jeffrey Hildner conversa com Lyle Young

Lyle conheceu a Ciência Cristã na faculdade, enquanto estudava música na Universidade Estadual de Ball em Muncie, Indiana, EUA, e começou a frequentar as reuniões semanais da Organização Universitária da Ciência Cristã realizadas no campus. Depois de formado, voltou a seu país natal, o Canadá, onde passou a frequentar regularmente uma igreja da Ciência Cristã em Ottawa.

Durante um ano, estudou tanto o idioma como a cultura francesa, na cidade de Quebec; no ano seguinte, estudou Relações Internacionais e história latino-americana em Buenos Aires e, em seguida, iniciou um curso de mestrado em Ciências Políticas na Universidade de Saskatchewan, no Canadá. Entre 1984 e 1985, como formando, estagiou no Parlamento canadense, o que deu a ele a oportunidade de conhecer funcionários de alto escalão do governo, políticos e diplomatas em Londres, Belfast, Bonn, Bruxelas e Washington, DC. Essas experiências o convenceram, diz ele: “que todas as mudanças que estão acontecendo no cenário mundial são reflexos do pensamento. Entendi que um Praticista da Ciência Cristã está sempre trabalhando no nível mental, onde ocorrem as verdadeiras transformações. Então, pensei que contribuiria da melhor forma como praticista”.

Com essa determinação, em 1987 abandonou o programa de mestrado para entrar para a prática da Ciência Cristã em tempo integral. Quatro anos mais tarde, tornou-se Professor de Ciência Cristã. Serviu A Igreja Mãe como Comitê de Publicação para Ontário, como Representante Federal para o Canadá, e como Primeiro Leitor de A Igreja Mãe, em Boston. Atualmente viaja pelo mundo como membro do Conselho de Conferências, dando palestras sobre a Ciência Cristã em inglês, francês, espanhol e português.

“Minha meta profissional”, disse Lyle quando conversamos recentemente aqui em Boston, “passou de ser músico, a diplomata, a Praticista da Ciência Cristã”. Ao longo de toda essa trajetória, ele manteve o grande cenário em mente e tem aplicado o que aprendeu na Ciência Cristã sobre oração, a algo maior que ele mesmo: ao mundo.

Jeffrey Hildner: Lyle, você estuda a Bíblia e Ciência e Saúde com a Chave das Escrituras, de Mary Baker Eddy, todos os dias, e fundamenta sua vida e seu ministério de cura sobre o que você aprende nesses dois livros. Juntos, eles proporcionam um quadro completo da realidade. Mas sei que você também lê muitos outros livros.

Lyle Young: Gosto de ler para ficar mais bem informado a respeito das vitórias e dificuldades pelas quais o mundo passa, como também para trazer cura a esse mundo. Por exemplo, estou lendo agora um livro de Simon Epstein: Histoire du peuple juif au XXe siècle.

Jeffrey Hildner: Você o está lendo em francês.

Lyle Young: Sim. O título poderia ser traduzido para o inglês como The History of the Jewish People in the Twentieth Century (A história do povo judeu no século XX). Desejo ajudar a trazer cura para os conflitos do Oriente Médio, e acho esse livro muito útil. O autor escreve sobre a Alemanha de 1922, e sobre sobre o fato de haver em torno de 70.000 membros da Associação Central dos Cidadãos Alemães de Fé Judaica, ou seja, aproximadamente 70.000 pessoas, em cerca 600 filiais da Associação, as quais estavam empenhadas em defender os direitos judaicos dentro da sociedade alemã, quando o ministro judeu-alemão de Relações Exteriores foi assassinado. Pessoas do país inteiro fizeram manifestações de protesto em massa, em várias cidades alemãs. Cerca de um milhão de pessoas participou da manifestação em Berlim. Entretanto, exatamente 11 anos mais tarde, os nazistas assumiram o poder. Em 1938 começou o Holocausto, o genocídio de milhares de judeus com o apoio do Estado. Para mim, essa sequência de fatos é muito instrutiva porque mostra o quão ativos temos de ser na luta contra as pretensões do mal. Em 1922, mais de um milhão de alemães manifestaram publicamente seu apoio à plena participação dos judeus na sociedade alemã. Mesmo assim, tudo foi por água abaixo de forma rápida e completa.

Jeffrey Hildner: Esses acontecimentos nos fazem lembrar o quão agressivas podem ser as pretensões do mal, como também quão rápida pode ser sua escalada e, portanto, quão atentos e preparados precisamos estar metafisicamente.

Lyle Young: E proativos também. Não simplesmente reagir ao mal, mas afirmar ativamente em nossos pensamentos e em nossa vida, por meio de nossas ações, o que é verdadeiro: que Deus, o bem, tem todo o poder e, portanto, que o mal, por mais poderoso que pareça ser não tem mais poder do que as pessoas permitam que tenha.

Jeffrey Hildner: Vamos nos concentrar nesta questão um pouco mais. Como pode um cristão metafísico contra-atacar o mal de forma proativa?

Lyle Young: Acho que deve começar reconhecendo que os pensamentos moldam nossas ações. Depois, seguir em frente com muita humildade, porque muita humildade é necessária para ouvir os pensamentos de Deus. Em minha opinião, ter calma, dar prioridade a ouvir a Deus, ao estudo da Bíblia e de Ciência e Saúdesão ações que funcionam. Isso é o que capacita a mim, como também a outros, a alcançar o domínio sobre a aparente força do mal. O estudo da Bíblia, juntamente com o estudo dos escritos de Mary Baker Eddy, é algo que transcende o conteúdo desses livros, pois se trata também de uma disciplina de abandonar nossa vontade própria para verdadeiramente comungar com o Divino, uma vez que para ouvir regularmente os pensamentos de Deus, precisamos alinhar de forma consistente nossa vontade com a vontade de Deus.

Jeffrey Hildner: Quando você diz Deus, talvez a figura de Jesus surja no pensamento de alguns, enquanto que, para outros, surja algo mais abstrato e misterioso. Como você definiria Deus?

Lyle Young: Como o bem infinito, puro. Outra expressão maravilhosa desse conceito de Deus aparece em 1 João: “Ora, a mensagem que, da parte dele, temos ouvido e vos anunciamos é esta: que Deus é luz, e não há nele nenhuma escuridão” (1:5).

Jeffrey Hildner: E quando você diz que Deus é o bem infinito, puro, ou que Deus é, metaforicamente, luz, você não está falando sobre uma entidade inerte, um Ser que está distante ou inativo.

Lyle Young: Não. Eu penso em Deus como um Ser perfeito, o único Ser, e, em termos bíblicos, como o grande “EU SOU O QUE SOU” (Êxodo 3:14). Penso em Deus como Amor infinito, caloroso, terno e dinâmico.

Jeffrey Hildner: Mary Baker Eddy deu seis outros sinônimos para Deus, além de Amor. Por exemplo, estive pensando sobre o sinônimo Espírito. A Bíblia nos informa que Deus e Espírito são sinônimos, quando diz: “Então, Jesus, no poder do Espírito, regressou para a Galiléia, e a sua fama correu por toda a circunvizinhança” (Lucas 4:14). O poder do Espírito capacitou Jesus a curar. Deu a ele autoridade sobre as circunstâncias materiais. Mary Baker Eddy também compreendeu que Deus é nosso Espírito divino. Ora, tenho ponderado como nosso Espírito divino inspira em nós o entusiasmo! Entusiasmo deriva das palavras gregas en theos, que significa Deus em nós, cada um de nós sendo um com Deus, ou inspirados por Deus. Portanto, o Espírito divino inspira em nós o amor e o entusiasmo para expressar o bem infinito, puro, sobre o qual você fala, como também o entusiasmo para contra-atacar o mal.

Mas a questão permanece: como o fato de levar uma vida cheia do entusiasmo do Espírito se traduz em causar um impacto que possa transformar o mundo? Um tipo de impacto que pudesse romper o feitiço de pesadelos, tais como aqueles que se apoderaram da Alemanha?

Lyle Young: Acho que isso requer oração profunda e viver consistentemente de acordo com essa oração. Para mim, oração significa recorrer a Deus e trazê-Lo aos meus pensamentos e à minha vida, de uma forma prática. É um desejo sincero de ser melhor, um desejo profundo de ser mais altruísta, um desejo ardente de ser mais puro em cada pensamento. Em Ciência e Saúde, Mary Baker Eddy falou a respeito de como orar: “No tranqüilo santuário das aspirações sinceras, precisamos negar o pecado e afirmar que Deus é Tudo” (p. 15). Essa passagem se encontra no capítulo “A Oração”. Isso é tudo o que precisamos fazer. A Bíblia diz que se Deus contasse os pecados, quem sobraria? (“Se observares, SENHOR, iniquidades, quem, Senhor, subsistirá?” [Salmos 130:3]). Portanto, orar significa negar o sentido pecaminoso do pensamento e empenhar-se em apreender a perfeição de Deus, a graça de Deus, a qual abrange a todos.

Quanto mais leio Ciência e Saúde, mais considero o capítulo “A Oração” como o ponto de partida para se compreender os outros capítulos. No capítulo “A Prática da Ciência Cristã”, Mary Baker Eddy fala muito especificamente sobre a forma de lidar com o medo e de curar a doença. Entretanto, no primeiro capítulo “A Oração”, ela menciona a palavra desejo. Nestas 17 páginas, ela usa essa palavra desejo e seus derivados, 23 vezes. Para mim, isso confirma que a oração é realmente um desejo sincero de ser melhor, fazer o melhor, e estar em conformidade com o que Deus sabe sobre nós. Nesse mesmo capítulo, ela fala sobre a sinceridade, incentivando os leitores a se libertarem da hipocrisia. Ela fala muito sobre a importância de se ter um coração aberto, um coração que seja totalmente sincero em querer fazer o bem. Portanto, muito embora ela apresente pontos muito específicos nos capítulos “A Prática da Ciência Cristã” ou “O Ensino da Ciência Cristã”, ainda assim, para mim, orar me faz retornar àquelas primeiras 17 páginas, em que ela diz: “Aquilo de que mais necessitamos, é a oração motivada pelo desejo fervoroso de crescer em graça, oração que se expressa em paciência, humildade, amor e boas obras” (p. 4).

Acredito que Mary Baker Eddy achava que seria preciso esse tipo de oração para que nos tornássemos receptivos àquilo que necessitava de redenção e cura no pensamento humano, e que nos capacitaria a ajudar aos outros e ao mundo em geral a vivenciar esse ajustamento benéfico. Portanto, o anseio e a sinceridade, a natureza inocente enfatizada no Sermão do Monte, a disposição de se tornar “como uma criança” (ver Marcos 10: 15), considero que essas qualidades teriam um impacto muito prático sobre o mundo.

Em minha palestra “Você pode mudar o mundo pela oração” uso a analogia de que tudo no mundo humano se constitui em um imenso mural para o qual todos nós contribuímos, não com tinta, mas com nossos pensamentos.

Jeffrey Hildner: Uma pintura mental.

Lyle Young: Isso mesmo, uma pintura mental. Por exemplo, quais são nossos pensamentos sobre o Afeganistão? Poderíamos dizer: “É uma situação impossível. Pessoas, de tribos diferentes e com vários pontos de vista religiosos vêm lutando durante séculos, e agora temos ali exércitos de outros países. Nunca haverá paz”. Sejam quais forem nossos pensamentos, são eles que estão contribuindo para a pintura desse mural.

Jeffrey Hildner: Em outras palavras, se nos ativermos a pensamentos de desgraça, desespero, raiva, ódio, estaremos contribuindo com pensamentos negativos para a pintura do mural mundial.

Lyle Young: É isso mesmo. Mas se começarmos com pensamentos provenientes de Deus, a Mente divina, que é outro sinônimo para Deus, ou seja, pensamentos de paz e de fraternidade, pensamentos bons, cheios da expectativa do bem, e se estivermos vivendo consistentemente em linha com esses pensamentos, então o que estaremos contribuindo para aquele mural é uma influência muito real para o bem.

Nossas orações são eficazes à medida que as vivenciamos. Digamos que estamos orando por um senso de progresso no Afeganistão, por um senso de segurança, um senso de união; nossas orações com esses objetivos serão eficazes na proporção em que nós mesmos expressarmos esse senso de fraternidade e de amor. Ou, digamos que estamos orando para os líderes de nosso país, porque eles têm decisões importantes a tomar. Desejamos que esses líderes expressem sabedoria, inteligência, coragem, sensibilidade, até mesmo amor. Nossas orações nessa direção serão eficazes à medida que expressarmos coragem, inteligência, honestidade e integridade. Estou inteiramente persuadido de que, a profunda e inabalável esperança e o comprometimento incansável que Nelson Mandela tinha para com a África do Sul completamente livre de racismo só foram eficazes porque ele vivia e vive consistentemente alinhado com essa esperança e esse comprometimento.

Jeffrey Hildner: O que passou pela minha mente foi uma pintura do artista pontilhista, Georges Seurat. Seurat pintava suas telas com pequenos pontos coloridos de tinta. Portanto, enquanto você falava, eu estava imaginando milhões de pequenos pontinhos que cada um de nós contribui, a cada momento, para esse mural de pensamentos que compõe o Planeta Terra.

Lyle Young: Esse mural também pode ser em um nível muito mais próximo, como a minha família. Quais são meus pensamentos a respeito da minha família? Será que tenho um pensamento do tipo: “minha irmã e meu irmão estão sempre brigando e provavelmente sempre brigarão”? Veja, se eu aceitar esse pensamento, é exatamente com isso que estou contribuindo para a família. O que é uma família? Ela é composta dos pensamentos de toda a família, os pensamentos que uns têm dos outros. Ora, o que eu posso pensar e afirmar, em espírito de oração, a respeito de minha família é que cada membro é um filho de Deus que ama a paz.

Jeffrey Hildner: E desta forma pintar uma tela maravilhosa da família.

Lyle Young: Sim, como também podemos pintar uma tela do nosso ambiente de trabalho. Uma tela da nossa cidade. Cada cenário no mundo humano é composto pela forma como as pessoas pensam sobre ele. Por conseguinte, é por intermédio da oração, por intermédio da humildade, e por intermédio dessa sinceridade de coração que nos tornamos receptivos às ideias de Deus, e que todos podemos ajudar a pintar um mural muito melhor.

Jeffrey Hildner: Sei que você pratica o que fala, porque antes mesmo de se tornar um Praticista da Ciência Cristã em tempo integral, você lia o jornal The Christian Science Monitor e dedicava muitas horas por semana para esse tipo de oração-pintura sobre a qual estamos falando.

Lyle Young: Sim, porque acredito, de forma veemente e entusiástica, que os cristãos, assim como outras pessoas que acreditam em Deus, têm na oração uma ferramenta a seu dispor. Portanto, em minha opinião, ser um cristão significa usar a ferramenta de um cristão, a oração, a fim de mudar o mundo e torná-lo um lugar melhor. Mas essa não é aquela oração que fica de um lado da sala e a ação prática do outro. É aquela oração que é uma abertura radical para o bem, uma abertura radical para as ideias práticas de Deus. Algumas vezes, as pessoas estão orando, muito embora não se deem conta disso, como por exemplo, Wangari Maathai, a ganhadora do Prêmio Nobel da Paz no Quênia. Maathai foi homenageada essencialmente por seu trabalho ambiental. Ela estivera adotando medidas ambientais, com base no amor e na consideração pelos seus semelhantes. As pessoas talvez não considerem isso uma oração tradicional. Mas, de novo, a oração é o desejo de fazer o bem, conforme o capítulo “A Oração” de Ciência e Saúde o revela. É o desejo de ser altruísta, o desejo de abençoar os outros.

Jeffrey Hildner: Assim como no caso de Wangari Maathai, a oração pode começar como um desejo e terminar como boas obras. Você pode falar sobre os sinais que você tem percebido de que sua oração funciona?

Lyle Young: Nem sempre é fácil perceber o impacto individual em um nível global, mas se você estiver orando de forma consistente pela família composta por toda a humanidade, orando a cada dia, de forma simples, tal como: “Querido Pai-Mãe, ajude-me a ver meus irmãos e irmãs como filhos de Deus”, acho que você pode fazer uma diferença para o lado do bem. Deixe-me dar-lhe alguns exemplos.

Trabalhei como membro dos Vigilantes da Vizinhança por algum tempo, e tínhamos estatísticas de criminalidade fornecidas pela polícia sobre casas arrombadas, furtos de veículos e arrombamentos de carros. Eu estivera orando pela vizinhança, por isso decidi: “Está bem, vou participar desse programa”. Identificamos categorias específicas de crimes que queríamos reduzir na vizinhança. Orei especificamente sobre esses problemas, afirmando que as pessoas estavam seguras e desejavam fazer o bem na comunidade. Logo em seguida, os índices caíram em duas de três categorias, de forma muito marcante.

Outro exemplo: em 1986, logo depois que trabalhei no parlamento canadense, o partido que ganhou as eleições fez campanha pelo voto livre no Parlamento para trazer de volta a pena capital. Não havia pena de morte no Canadá desde os anos 60. Entretanto, um novo partido político assumiu o poder e prometeu que haveria uma votação livre sobre a questão. Eu estava a par da situação, porque havia trabalhado no Parlamento e pelas pesquisas que indicavam que os parlamentares (deputados) eram fortemente favoráveis a trazer de volta a pena capital. À medida que a votação se aproximava, orava para negar qualquer coisa contrária à vida em minha própria experiência. Com profunda sinceridade, afirmei que a Vida é infinita e não tem fim.

Jeffrey Hildner: Quando você diz Vida com letra maiúscula, você quer dizer Vida como um sinônimo para Deus, ou seja, o quarto sinônimo para Deus que mencionamos até agora.

Lyle Young: Exatamente, Vida como um sinônimo para Deus. Porque Deus é infinito, não pode haver nada que se oponha à Vida. Trabalhei ao longo dessas linhas, sabendo que Deus estava governando os deputados que iriam votar. Claro, eu sabia que outros estavam orando também. Para surpresa da maioria dos analistas, a votação foi contra o retorno da pena de morte. Portanto, considero esse um incidente muito específico em que a oração causou um impacto.

Eis aqui outro exemplo também relacionado com a vida do meu país. O Canadá tem uma longa história de dois grupos de habitantes que falam idiomas diferentes, mas que trabalham arduamente para manter um bom relacionamento entre si e, na maior parte das vezes, eles conseguem. O relacionamento entre os habitantes de língua francesa e os de língua inglesa tem sido uma característica determinante na história do Canadá, da mesma forma que o relacionamento entre os afro-americanos e os americanos de decendência européia tem sido uma característica determinante na história dos Estados Unidos. Houve dois referendos no Canadá, um em 1980, e outro em 1995, essencialmente para decidir se Quebec deveria ou não se separar do resto do Canadá. Ao orar sobre essa questão em 1995, fui levado a me perguntar como eu definiria a mim mesmo, ou seja: “Estou pensando sobre mim mesmo como originário de uma determinada área geográfica”? Se o país de onde eu vim perdesse um terço de sua área geográfica, será que me sentiria de forma diferente? O Canadá se estende da Colúmbia Britânica no oeste até Newfoundland no leste, e até o território de Nunavut e o Oceano Ártico ao norte. Perguntei-me: “Existiria algo inerente à geografia que defina quem sou”? Continuei orando, sabendo que o que define a cada um de nós, o que define cada pessoa ao redor do mundo, o que define cada pessoa no Canadá, não é a história ou a cultura humana, a composição étnica, ou o idioma que falamos. Nenhum desses fatores define quem somos como filhos de Deus. Cada um de nós é definido por nossa união com Deus. A Alma, outro sinônimo para Deus, forma o que somos e define nossa individualidade.

Jeffrey Hildner: Você não avaliou mentalmente para que lado você achava que o voto deveria ir?

Lyle Young: Certamente tenho opiniões políticas, mas senti que queria ir mais fundo. Queria ter um senso de segurança que não dependesse nem da história e nem da geografia, mas que viesse somente de Deus.

Jeffrey Hildner: Como isso funcionou?

Lyle Young: Parece que funcionou muito bem. O Canadá se manteve intacto. Desde 1995, não houve mais nenhum outro referendo. Entretanto, como essa é uma questão política, é compreensível que existam vários pontos de vista. Pensei, contudo, que o senso de paz que senti contribuiu, e ainda contribui, para as relações harmoniosas entre franceses e ingleses.

Jeffrey Hildner: Pergunto-me se você não se sente desorientado diante da dimensão política do tipo de oração que você descreve, porque os leitores, a esta altura, poderiam dizer: “Sou a favor da pena de morte”. Ou então: “Sou a favor da separação”.

Lyle Young: Veja, orar não é ir a Deus e dizer: “Quero que aconteça isso. Deus, faça com que isso aconteça”. Nos exemplos que dei, fui muito cuidadoso para não cair nesse tipo de oração. A oração é exatamente o oposto disso. A oração envolve abandonar as opiniões humanas. Significa renunciar às avaliações humanas. Exige renunciar à nossa vontade humana limitada e, em vez disso, submeter-se a Deus. Orar é colocar a si mesmo e aos outros, sob os cuidados de Deus.

Jeffrey Hildner: De certa forma, a oração se resume em afirmar que tudo é governado pela Mente imortal no reino humano. Afirmar, em nome do mural da sociedade, que apenas a sabedoria, apenas o senso mais elevado de como reagir a uma determinada situação, pode governar as conclusões e as ações das pessoas envolvidas.

Lyle Young: Sim. Jesus nos mostrou como orar no Jardim do Getsêmani, quando disse: “…não se faça a minha vontade, e sim a tua” (Lucas 22:42). Ele confiava em que a vontade de Deus é sempre harmoniosa e abrangente.

Jeffrey Hildner: Sim, tendo em vista que estamos falando da vontade do Amor, constante e toda abrangente, da vontade da sabedoria divina, da justiça divina, do Princípio divino, o sexto sinônimo para Deus. Estamos falando da vontade da compaixão divina, do progresso e da iluminação divina, e da vontade do sustento divino, que eleva, inspira e abençoa tanto os indivíduos quanto as sociedades. Se nos submetermos a essa vontade, não seria bom deixar que ela prevaleça?

Lyle Young: Exatamente. Uma das coisas que mais gosto no cristianismo é que ele não está direcionado unicamente para a salvação individual, mas também para a salvação do mundo. Portanto, para nós não basta apenas, de alguma forma, resolver nossos assuntos sozinhos, por conta própria. Somos chamados a trazer redenção para o mundo. Esse é o chamado que vejo expresso no Novo Testamento: “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura” (Marcos 16:15). O Novo Testamento não nos pede para encontrar a harmonia ou o céu dentro de nós mesmos e parar por aí. Existe um forte senso, tanto no Antigo como no Novo Testamento, de que todos têm uma obrigação a cumprir para com todas as demais pessoas no planeta.

Jeffrey Hildner: Você me fez lembrar o bom Samaritano, o herói da parábola que Jesus contou para ilustrar o chamado para se ajudar o próximo (ver Lucas 10: 30-37). Jesus ensinou que o espírito do Cristo significa ajudar o próximo e não apenas ajudar a si mesmo. Não basta se elevar, se os outros permanecem abaixo, porque todos somos irmãos e irmãs. Naturalmente, o próprio Jesus é um modelo desse comportamento. Ele movia-se em sincronia com a Verdade, o sétimo sinônimo para Deus e, portanto, um sinônimo para o Amor. Jesus ajudava e curava as pessoas em todos os lugares por onde passava. O que significa que, se nos consideramos como seguidores de Jesus, temos de fazer o mesmo, senão estaremos sendo hipócritas.

Lyle Young: Sim, é exatamente isso. O espírito do bom Samaritano é a própria essência do que estamos falando. O espírito do bom Samaritano é a própria essência da Ciência Cristã. A Ciência Cristã inspira a boa vontade ilimitada para com as outras pessoas e, mais do que isso, ajuda as pessoas a apoiar essa boa vontade, de maneiras eficazes e alicerçadas na oração.

Uma ideia que gosto muito é que a Ciência Cristã é a lei de Deus, a lei do Amor, inscrita em nosso “coração”, como lemos em Jeremias (ver 31:33). Essa lei divina é universal e está inscrita no coração de cada um. Está inscrita no coração de cada pessoa em Camarões, no Chile, na Índia e no Paquistão, lugares em que proferi palestras. Inscrita no coração de cada pessoa, em toda parte do mundo, pronta para ser revelada.

Por isso, creio que o desejo de ser amoroso, de ser altruísta, de pensar no próximo antes de pensar em si mesmo, até mesmo a compreensão metafísica exata que a Ciência Cristã nos proporciona é inerente a cada um de nós, da mesma forma que as listras são inerentes a um tigre. Parte da definição espiritual de homem emCiência e Saúde diz que o homem é “a representação completa da Mente” (p. 591). Portanto, minha responsabilidade como bom Samaritano é ver a mim mesmo e aos outros dessa maneira, como a representação completa da Mente.

Acho que o cristianismo tem sido muito frequentemente considerado como a conversão de alguém a fazer isso ou persuadir alguém a fazer aquilo. Ao passo que o cristianismo se refere mais a que eu tenha a disciplina e a humildade para ver o divino em meu irmão, refere-se a que eu tenha a disciplina e a humildade para ver a bondade em uma irmã ou em um vizinho, muito embora essa pessoa possa não parecer boa em sua aparência exterior. Tenho o dever, como cristão, de ver o indivíduo à luz dessa Ciência universal do ser, e, dessa forma, trazer cura.

Jeffrey Hildner: Em sua conferência, o ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 1964, Martin Luther King Jr., que pregava o amor e vivia o amor, incluiu esta citação do historiador britânico Arnold Toynbee: “O amor é a força máxima que faz a escolha salvadora da vida e do bem, contra a escolha condenatória da morte e do mal. Portanto, a primeira esperança em nosso inventário deve ser a esperança de que o amor terá a última palavra”.

Lyle Young: Isso é emocionante! Sim, por meio da oração podemos afirmar, de maneira profunda, sincera e cheia de expectativa, que o Amor tem a última palavra. Podemos homenagear essa oração pela maneira como vivemos. Na verdade, o Amor divino, Deus, tem uma só palavra, a primeira palavra, assim como a última.

Jeffrey é Redator Sênior e Diretor de Arte das revistas The Christian Science Journal e The Christian Science Sentinel.

Moldar o pensamento com o bem

Crédito: © Foto de Arquivo

Jeffrey Hildner conversa com Lyle Young

Lyle conheceu a Ciência Cristã na faculdade, enquanto estudava música na Universidade Estadual de Ball em Muncie, Indiana, EUA, e começou a frequentar as reuniões semanais da Organização Universitária da Ciência Cristã realizadas no campus. Depois de formado, voltou a seu país natal, o Canadá, onde passou a frequentar regularmente uma igreja da Ciência Cristã em Ottawa.

Durante um ano, estudou tanto o idioma como a cultura francesa, na cidade de Quebec; no ano seguinte, estudou Relações Internacionais e história latino-americana em Buenos Aires e, em seguida, iniciou um curso de mestrado em Ciências Políticas na Universidade de Saskatchewan, no Canadá. Entre 1984 e 1985, como formando, estagiou no Parlamento canadense, o que deu a ele a oportunidade de conhecer funcionários de alto escalão do governo, políticos e diplomatas em Londres, Belfast, Bonn, Bruxelas e Washington, DC. Essas experiências o convenceram, diz ele: “que todas as mudanças que estão acontecendo no cenário mundial são reflexos do pensamento. Entendi que um Praticista da Ciência Cristã está sempre trabalhando no nível mental, onde ocorrem as verdadeiras transformações. Então, pensei que contribuiria da melhor forma como praticista”.

Com essa determinação, em 1987 abandonou o programa de mestrado para entrar para a prática da Ciência Cristã em tempo integral. Quatro anos mais tarde, tornou-se Professor de Ciência Cristã. Serviu A Igreja Mãe como Comitê de Publicação para Ontário, como Representante Federal para o Canadá, e como Primeiro Leitor de A Igreja Mãe, em Boston. Atualmente viaja pelo mundo como membro do Conselho de Conferências, dando palestras sobre a Ciência Cristã em inglês, francês, espanhol e português.

“Minha meta profissional”, disse Lyle quando conversamos recentemente aqui em Boston, “passou de ser músico, a diplomata, a Praticista da Ciência Cristã”. Ao longo de toda essa trajetória, ele manteve o grande cenário em mente e tem aplicado o que aprendeu na Ciência Cristã sobre oração, a algo maior que ele mesmo: ao mundo.

Jeffrey Hildner: Lyle, você estuda a Bíblia e Ciência e Saúde com a Chave das Escrituras, de Mary Baker Eddy, todos os dias, e fundamenta sua vida e seu ministério de cura sobre o que você aprende nesses dois livros. Juntos, eles proporcionam um quadro completo da realidade. Mas sei que você também lê muitos outros livros.

Lyle Young: Gosto de ler para ficar mais bem informado a respeito das vitórias e dificuldades pelas quais o mundo passa, como também para trazer cura a esse mundo. Por exemplo, estou lendo agora um livro de Simon Epstein: Histoire du peuple juif au XXe siècle.

Jeffrey Hildner: Você o está lendo em francês.

Lyle Young: Sim. O título poderia ser traduzido para o inglês como The History of the Jewish People in the Twentieth Century (A história do povo judeu no século XX). Desejo ajudar a trazer cura para os conflitos do Oriente Médio, e acho esse livro muito útil. O autor escreve sobre a Alemanha de 1922, e sobre sobre o fato de haver em torno de 70.000 membros da Associação Central dos Cidadãos Alemães de Fé Judaica, ou seja, aproximadamente 70.000 pessoas, em cerca 600 filiais da Associação, as quais estavam empenhadas em defender os direitos judaicos dentro da sociedade alemã, quando o ministro judeu-alemão de Relações Exteriores foi assassinado. Pessoas do país inteiro fizeram manifestações de protesto em massa, em várias cidades alemãs. Cerca de um milhão de pessoas participou da manifestação em Berlim. Entretanto, exatamente 11 anos mais tarde, os nazistas assumiram o poder. Em 1938 começou o Holocausto, o genocídio de milhares de judeus com o apoio do Estado. Para mim, essa sequência de fatos é muito instrutiva porque mostra o quão ativos temos de ser na luta contra as pretensões do mal. Em 1922, mais de um milhão de alemães manifestaram publicamente seu apoio à plena participação dos judeus na sociedade alemã. Mesmo assim, tudo foi por água abaixo de forma rápida e completa.

Jeffrey Hildner: Esses acontecimentos nos fazem lembrar o quão agressivas podem ser as pretensões do mal, como também quão rápida pode ser sua escalada e, portanto, quão atentos e preparados precisamos estar metafisicamente.

Lyle Young: E proativos também. Não simplesmente reagir ao mal, mas afirmar ativamente em nossos pensamentos e em nossa vida, por meio de nossas ações, o que é verdadeiro: que Deus, o bem, tem todo o poder e, portanto, que o mal, por mais poderoso que pareça ser não tem mais poder do que as pessoas permitam que tenha.

Jeffrey Hildner: Vamos nos concentrar nesta questão um pouco mais. Como pode um cristão metafísico contra-atacar o mal de forma proativa?

Lyle Young: Acho que deve começar reconhecendo que os pensamentos moldam nossas ações. Depois, seguir em frente com muita humildade, porque muita humildade é necessária para ouvir os pensamentos de Deus. Em minha opinião, ter calma, dar prioridade a ouvir a Deus, ao estudo da Bíblia e de Ciência e Saúdesão ações que funcionam. Isso é o que capacita a mim, como também a outros, a alcançar o domínio sobre a aparente força do mal. O estudo da Bíblia, juntamente com o estudo dos escritos de Mary Baker Eddy, é algo que transcende o conteúdo desses livros, pois se trata também de uma disciplina de abandonar nossa vontade própria para verdadeiramente comungar com o Divino, uma vez que para ouvir regularmente os pensamentos de Deus, precisamos alinhar de forma consistente nossa vontade com a vontade de Deus.

Jeffrey Hildner: Quando você diz Deus, talvez a figura de Jesus surja no pensamento de alguns, enquanto que, para outros, surja algo mais abstrato e misterioso. Como você definiria Deus?

Lyle Young: Como o bem infinito, puro. Outra expressão maravilhosa desse conceito de Deus aparece em 1 João: “Ora, a mensagem que, da parte dele, temos ouvido e vos anunciamos é esta: que Deus é luz, e não há nele nenhuma escuridão” (1:5).

Jeffrey Hildner: E quando você diz que Deus é o bem infinito, puro, ou que Deus é, metaforicamente, luz, você não está falando sobre uma entidade inerte, um Ser que está distante ou inativo.

Lyle Young: Não. Eu penso em Deus como um Ser perfeito, o único Ser, e, em termos bíblicos, como o grande “EU SOU O QUE SOU” (Êxodo 3:14). Penso em Deus como Amor infinito, caloroso, terno e dinâmico.

Jeffrey Hildner: Mary Baker Eddy deu seis outros sinônimos para Deus, além de Amor. Por exemplo, estive pensando sobre o sinônimo Espírito. A Bíblia nos informa que Deus e Espírito são sinônimos, quando diz: “Então, Jesus, no poder do Espírito, regressou para a Galiléia, e a sua fama correu por toda a circunvizinhança” (Lucas 4:14). O poder do Espírito capacitou Jesus a curar. Deu a ele autoridade sobre as circunstâncias materiais. Mary Baker Eddy também compreendeu que Deus é nosso Espírito divino. Ora, tenho ponderado como nosso Espírito divino inspira em nós o entusiasmo! Entusiasmo deriva das palavras gregas en theos, que significa Deus em nós, cada um de nós sendo um com Deus, ou inspirados por Deus. Portanto, o Espírito divino inspira em nós o amor e o entusiasmo para expressar o bem infinito, puro, sobre o qual você fala, como também o entusiasmo para contra-atacar o mal.

Mas a questão permanece: como o fato de levar uma vida cheia do entusiasmo do Espírito se traduz em causar um impacto que possa transformar o mundo? Um tipo de impacto que pudesse romper o feitiço de pesadelos, tais como aqueles que se apoderaram da Alemanha?

Lyle Young: Acho que isso requer oração profunda e viver consistentemente de acordo com essa oração. Para mim, oração significa recorrer a Deus e trazê-Lo aos meus pensamentos e à minha vida, de uma forma prática. É um desejo sincero de ser melhor, um desejo profundo de ser mais altruísta, um desejo ardente de ser mais puro em cada pensamento. Em Ciência e Saúde, Mary Baker Eddy falou a respeito de como orar: “No tranqüilo santuário das aspirações sinceras, precisamos negar o pecado e afirmar que Deus é Tudo” (p. 15). Essa passagem se encontra no capítulo “A Oração”. Isso é tudo o que precisamos fazer. A Bíblia diz que se Deus contasse os pecados, quem sobraria? (“Se observares, SENHOR, iniquidades, quem, Senhor, subsistirá?” [Salmos 130:3]). Portanto, orar significa negar o sentido pecaminoso do pensamento e empenhar-se em apreender a perfeição de Deus, a graça de Deus, a qual abrange a todos.

Quanto mais leio Ciência e Saúde, mais considero o capítulo “A Oração” como o ponto de partida para se compreender os outros capítulos. No capítulo “A Prática da Ciência Cristã”, Mary Baker Eddy fala muito especificamente sobre a forma de lidar com o medo e de curar a doença. Entretanto, no primeiro capítulo “A Oração”, ela menciona a palavra desejo. Nestas 17 páginas, ela usa essa palavra desejo e seus derivados, 23 vezes. Para mim, isso confirma que a oração é realmente um desejo sincero de ser melhor, fazer o melhor, e estar em conformidade com o que Deus sabe sobre nós. Nesse mesmo capítulo, ela fala sobre a sinceridade, incentivando os leitores a se libertarem da hipocrisia. Ela fala muito sobre a importância de se ter um coração aberto, um coração que seja totalmente sincero em querer fazer o bem. Portanto, muito embora ela apresente pontos muito específicos nos capítulos “A Prática da Ciência Cristã” ou “O Ensino da Ciência Cristã”, ainda assim, para mim, orar me faz retornar àquelas primeiras 17 páginas, em que ela diz: “Aquilo de que mais necessitamos, é a oração motivada pelo desejo fervoroso de crescer em graça, oração que se expressa em paciência, humildade, amor e boas obras” (p. 4).

Acredito que Mary Baker Eddy achava que seria preciso esse tipo de oração para que nos tornássemos receptivos àquilo que necessitava de redenção e cura no pensamento humano, e que nos capacitaria a ajudar aos outros e ao mundo em geral a vivenciar esse ajustamento benéfico. Portanto, o anseio e a sinceridade, a natureza inocente enfatizada no Sermão do Monte, a disposição de se tornar “como uma criança” (ver Marcos 10: 15), considero que essas qualidades teriam um impacto muito prático sobre o mundo.

Em minha palestra “Você pode mudar o mundo pela oração” uso a analogia de que tudo no mundo humano se constitui em um imenso mural para o qual todos nós contribuímos, não com tinta, mas com nossos pensamentos.

Jeffrey Hildner: Uma pintura mental.

Lyle Young: Isso mesmo, uma pintura mental. Por exemplo, quais são nossos pensamentos sobre o Afeganistão? Poderíamos dizer: “É uma situação impossível. Pessoas, de tribos diferentes e com vários pontos de vista religiosos vêm lutando durante séculos, e agora temos ali exércitos de outros países. Nunca haverá paz”. Sejam quais forem nossos pensamentos, são eles que estão contribuindo para a pintura desse mural.

Jeffrey Hildner: Em outras palavras, se nos ativermos a pensamentos de desgraça, desespero, raiva, ódio, estaremos contribuindo com pensamentos negativos para a pintura do mural mundial.

Lyle Young: É isso mesmo. Mas se começarmos com pensamentos provenientes de Deus, a Mente divina, que é outro sinônimo para Deus, ou seja, pensamentos de paz e de fraternidade, pensamentos bons, cheios da expectativa do bem, e se estivermos vivendo consistentemente em linha com esses pensamentos, então o que estaremos contribuindo para aquele mural é uma influência muito real para o bem.

Nossas orações são eficazes à medida que as vivenciamos. Digamos que estamos orando por um senso de progresso no Afeganistão, por um senso de segurança, um senso de união; nossas orações com esses objetivos serão eficazes na proporção em que nós mesmos expressarmos esse senso de fraternidade e de amor. Ou, digamos que estamos orando para os líderes de nosso país, porque eles têm decisões importantes a tomar. Desejamos que esses líderes expressem sabedoria, inteligência, coragem, sensibilidade, até mesmo amor. Nossas orações nessa direção serão eficazes à medida que expressarmos coragem, inteligência, honestidade e integridade. Estou inteiramente persuadido de que, a profunda e inabalável esperança e o comprometimento incansável que Nelson Mandela tinha para com a África do Sul completamente livre de racismo só foram eficazes porque ele vivia e vive consistentemente alinhado com essa esperança e esse comprometimento.

Jeffrey Hildner: O que passou pela minha mente foi uma pintura do artista pontilhista, Georges Seurat. Seurat pintava suas telas com pequenos pontos coloridos de tinta. Portanto, enquanto você falava, eu estava imaginando milhões de pequenos pontinhos que cada um de nós contribui, a cada momento, para esse mural de pensamentos que compõe o Planeta Terra.

Lyle Young: Esse mural também pode ser em um nível muito mais próximo, como a minha família. Quais são meus pensamentos a respeito da minha família? Será que tenho um pensamento do tipo: “minha irmã e meu irmão estão sempre brigando e provavelmente sempre brigarão”? Veja, se eu aceitar esse pensamento, é exatamente com isso que estou contribuindo para a família. O que é uma família? Ela é composta dos pensamentos de toda a família, os pensamentos que uns têm dos outros. Ora, o que eu posso pensar e afirmar, em espírito de oração, a respeito de minha família é que cada membro é um filho de Deus que ama a paz.

Jeffrey Hildner: E desta forma pintar uma tela maravilhosa da família.

Lyle Young: Sim, como também podemos pintar uma tela do nosso ambiente de trabalho. Uma tela da nossa cidade. Cada cenário no mundo humano é composto pela forma como as pessoas pensam sobre ele. Por conseguinte, é por intermédio da oração, por intermédio da humildade, e por intermédio dessa sinceridade de coração que nos tornamos receptivos às ideias de Deus, e que todos podemos ajudar a pintar um mural muito melhor.

Jeffrey Hildner: Sei que você pratica o que fala, porque antes mesmo de se tornar um Praticista da Ciência Cristã em tempo integral, você lia o jornal The Christian Science Monitor e dedicava muitas horas por semana para esse tipo de oração-pintura sobre a qual estamos falando.

Lyle Young: Sim, porque acredito, de forma veemente e entusiástica, que os cristãos, assim como outras pessoas que acreditam em Deus, têm na oração uma ferramenta a seu dispor. Portanto, em minha opinião, ser um cristão significa usar a ferramenta de um cristão, a oração, a fim de mudar o mundo e torná-lo um lugar melhor. Mas essa não é aquela oração que fica de um lado da sala e a ação prática do outro. É aquela oração que é uma abertura radical para o bem, uma abertura radical para as ideias práticas de Deus. Algumas vezes, as pessoas estão orando, muito embora não se deem conta disso, como por exemplo, Wangari Maathai, a ganhadora do Prêmio Nobel da Paz no Quênia. Maathai foi homenageada essencialmente por seu trabalho ambiental. Ela estivera adotando medidas ambientais, com base no amor e na consideração pelos seus semelhantes. As pessoas talvez não considerem isso uma oração tradicional. Mas, de novo, a oração é o desejo de fazer o bem, conforme o capítulo “A Oração” de Ciência e Saúde o revela. É o desejo de ser altruísta, o desejo de abençoar os outros.

Jeffrey Hildner: Assim como no caso de Wangari Maathai, a oração pode começar como um desejo e terminar como boas obras. Você pode falar sobre os sinais que você tem percebido de que sua oração funciona?

Lyle Young: Nem sempre é fácil perceber o impacto individual em um nível global, mas se você estiver orando de forma consistente pela família composta por toda a humanidade, orando a cada dia, de forma simples, tal como: “Querido Pai-Mãe, ajude-me a ver meus irmãos e irmãs como filhos de Deus”, acho que você pode fazer uma diferença para o lado do bem. Deixe-me dar-lhe alguns exemplos.

Trabalhei como membro dos Vigilantes da Vizinhança por algum tempo, e tínhamos estatísticas de criminalidade fornecidas pela polícia sobre casas arrombadas, furtos de veículos e arrombamentos de carros. Eu estivera orando pela vizinhança, por isso decidi: “Está bem, vou participar desse programa”. Identificamos categorias específicas de crimes que queríamos reduzir na vizinhança. Orei especificamente sobre esses problemas, afirmando que as pessoas estavam seguras e desejavam fazer o bem na comunidade. Logo em seguida, os índices caíram em duas de três categorias, de forma muito marcante.

Outro exemplo: em 1986, logo depois que trabalhei no parlamento canadense, o partido que ganhou as eleições fez campanha pelo voto livre no Parlamento para trazer de volta a pena capital. Não havia pena de morte no Canadá desde os anos 60. Entretanto, um novo partido político assumiu o poder e prometeu que haveria uma votação livre sobre a questão. Eu estava a par da situação, porque havia trabalhado no Parlamento e pelas pesquisas que indicavam que os parlamentares (deputados) eram fortemente favoráveis a trazer de volta a pena capital. À medida que a votação se aproximava, orava para negar qualquer coisa contrária à vida em minha própria experiência. Com profunda sinceridade, afirmei que a Vida é infinita e não tem fim.

Jeffrey Hildner: Quando você diz Vida com letra maiúscula, você quer dizer Vida como um sinônimo para Deus, ou seja, o quarto sinônimo para Deus que mencionamos até agora.

Lyle Young: Exatamente, Vida como um sinônimo para Deus. Porque Deus é infinito, não pode haver nada que se oponha à Vida. Trabalhei ao longo dessas linhas, sabendo que Deus estava governando os deputados que iriam votar. Claro, eu sabia que outros estavam orando também. Para surpresa da maioria dos analistas, a votação foi contra o retorno da pena de morte. Portanto, considero esse um incidente muito específico em que a oração causou um impacto.

Eis aqui outro exemplo também relacionado com a vida do meu país. O Canadá tem uma longa história de dois grupos de habitantes que falam idiomas diferentes, mas que trabalham arduamente para manter um bom relacionamento entre si e, na maior parte das vezes, eles conseguem. O relacionamento entre os habitantes de língua francesa e os de língua inglesa tem sido uma característica determinante na história do Canadá, da mesma forma que o relacionamento entre os afro-americanos e os americanos de decendência européia tem sido uma característica determinante na história dos Estados Unidos. Houve dois referendos no Canadá, um em 1980, e outro em 1995, essencialmente para decidir se Quebec deveria ou não se separar do resto do Canadá. Ao orar sobre essa questão em 1995, fui levado a me perguntar como eu definiria a mim mesmo, ou seja: “Estou pensando sobre mim mesmo como originário de uma determinada área geográfica”? Se o país de onde eu vim perdesse um terço de sua área geográfica, será que me sentiria de forma diferente? O Canadá se estende da Colúmbia Britânica no oeste até Newfoundland no leste, e até o território de Nunavut e o Oceano Ártico ao norte. Perguntei-me: “Existiria algo inerente à geografia que defina quem sou”? Continuei orando, sabendo que o que define a cada um de nós, o que define cada pessoa ao redor do mundo, o que define cada pessoa no Canadá, não é a história ou a cultura humana, a composição étnica, ou o idioma que falamos. Nenhum desses fatores define quem somos como filhos de Deus. Cada um de nós é definido por nossa união com Deus. A Alma, outro sinônimo para Deus, forma o que somos e define nossa individualidade.

Jeffrey Hildner: Você não avaliou mentalmente para que lado você achava que o voto deveria ir?

Lyle Young: Certamente tenho opiniões políticas, mas senti que queria ir mais fundo. Queria ter um senso de segurança que não dependesse nem da história e nem da geografia, mas que viesse somente de Deus.

Jeffrey Hildner: Como isso funcionou?

Lyle Young: Parece que funcionou muito bem. O Canadá se manteve intacto. Desde 1995, não houve mais nenhum outro referendo. Entretanto, como essa é uma questão política, é compreensível que existam vários pontos de vista. Pensei, contudo, que o senso de paz que senti contribuiu, e ainda contribui, para as relações harmoniosas entre franceses e ingleses.

Jeffrey Hildner: Pergunto-me se você não se sente desorientado diante da dimensão política do tipo de oração que você descreve, porque os leitores, a esta altura, poderiam dizer: “Sou a favor da pena de morte”. Ou então: “Sou a favor da separação”.

Lyle Young: Veja, orar não é ir a Deus e dizer: “Quero que aconteça isso. Deus, faça com que isso aconteça”. Nos exemplos que dei, fui muito cuidadoso para não cair nesse tipo de oração. A oração é exatamente o oposto disso. A oração envolve abandonar as opiniões humanas. Significa renunciar às avaliações humanas. Exige renunciar à nossa vontade humana limitada e, em vez disso, submeter-se a Deus. Orar é colocar a si mesmo e aos outros, sob os cuidados de Deus.

Jeffrey Hildner: De certa forma, a oração se resume em afirmar que tudo é governado pela Mente imortal no reino humano. Afirmar, em nome do mural da sociedade, que apenas a sabedoria, apenas o senso mais elevado de como reagir a uma determinada situação, pode governar as conclusões e as ações das pessoas envolvidas.

Lyle Young: Sim. Jesus nos mostrou como orar no Jardim do Getsêmani, quando disse: “…não se faça a minha vontade, e sim a tua” (Lucas 22:42). Ele confiava em que a vontade de Deus é sempre harmoniosa e abrangente.

Jeffrey Hildner: Sim, tendo em vista que estamos falando da vontade do Amor, constante e toda abrangente, da vontade da sabedoria divina, da justiça divina, do Princípio divino, o sexto sinônimo para Deus. Estamos falando da vontade da compaixão divina, do progresso e da iluminação divina, e da vontade do sustento divino, que eleva, inspira e abençoa tanto os indivíduos quanto as sociedades. Se nos submetermos a essa vontade, não seria bom deixar que ela prevaleça?

Lyle Young: Exatamente. Uma das coisas que mais gosto no cristianismo é que ele não está direcionado unicamente para a salvação individual, mas também para a salvação do mundo. Portanto, para nós não basta apenas, de alguma forma, resolver nossos assuntos sozinhos, por conta própria. Somos chamados a trazer redenção para o mundo. Esse é o chamado que vejo expresso no Novo Testamento: “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura” (Marcos 16:15). O Novo Testamento não nos pede para encontrar a harmonia ou o céu dentro de nós mesmos e parar por aí. Existe um forte senso, tanto no Antigo como no Novo Testamento, de que todos têm uma obrigação a cumprir para com todas as demais pessoas no planeta.

Jeffrey Hildner: Você me fez lembrar o bom Samaritano, o herói da parábola que Jesus contou para ilustrar o chamado para se ajudar o próximo (ver Lucas 10: 30-37). Jesus ensinou que o espírito do Cristo significa ajudar o próximo e não apenas ajudar a si mesmo. Não basta se elevar, se os outros permanecem abaixo, porque todos somos irmãos e irmãs. Naturalmente, o próprio Jesus é um modelo desse comportamento. Ele movia-se em sincronia com a Verdade, o sétimo sinônimo para Deus e, portanto, um sinônimo para o Amor. Jesus ajudava e curava as pessoas em todos os lugares por onde passava. O que significa que, se nos consideramos como seguidores de Jesus, temos de fazer o mesmo, senão estaremos sendo hipócritas.

Lyle Young: Sim, é exatamente isso. O espírito do bom Samaritano é a própria essência do que estamos falando. O espírito do bom Samaritano é a própria essência da Ciência Cristã. A Ciência Cristã inspira a boa vontade ilimitada para com as outras pessoas e, mais do que isso, ajuda as pessoas a apoiar essa boa vontade, de maneiras eficazes e alicerçadas na oração.

Uma ideia que gosto muito é que a Ciência Cristã é a lei de Deus, a lei do Amor, inscrita em nosso “coração”, como lemos em Jeremias (ver 31:33). Essa lei divina é universal e está inscrita no coração de cada um. Está inscrita no coração de cada pessoa em Camarões, no Chile, na Índia e no Paquistão, lugares em que proferi palestras. Inscrita no coração de cada pessoa, em toda parte do mundo, pronta para ser revelada.

Por isso, creio que o desejo de ser amoroso, de ser altruísta, de pensar no próximo antes de pensar em si mesmo, até mesmo a compreensão metafísica exata que a Ciência Cristã nos proporciona é inerente a cada um de nós, da mesma forma que as listras são inerentes a um tigre. Parte da definição espiritual de homem emCiência e Saúde diz que o homem é “a representação completa da Mente” (p. 591). Portanto, minha responsabilidade como bom Samaritano é ver a mim mesmo e aos outros dessa maneira, como a representação completa da Mente.

Acho que o cristianismo tem sido muito frequentemente considerado como a conversão de alguém a fazer isso ou persuadir alguém a fazer aquilo. Ao passo que o cristianismo se refere mais a que eu tenha a disciplina e a humildade para ver o divino em meu irmão, refere-se a que eu tenha a disciplina e a humildade para ver a bondade em uma irmã ou em um vizinho, muito embora essa pessoa possa não parecer boa em sua aparência exterior. Tenho o dever, como cristão, de ver o indivíduo à luz dessa Ciência universal do ser, e, dessa forma, trazer cura.

Jeffrey Hildner: Em sua conferência, o ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 1964, Martin Luther King Jr., que pregava o amor e vivia o amor, incluiu esta citação do historiador britânico Arnold Toynbee: “O amor é a força máxima que faz a escolha salvadora da vida e do bem, contra a escolha condenatória da morte e do mal. Portanto, a primeira esperança em nosso inventário deve ser a esperança de que o amor terá a última palavra”.

Lyle Young: Isso é emocionante! Sim, por meio da oração podemos afirmar, de maneira profunda, sincera e cheia de expectativa, que o Amor tem a última palavra. Podemos homenagear essa oração pela maneira como vivemos. Na verdade, o Amor divino, Deus, tem uma só palavra, a primeira palavra, assim como a última.

Jeffrey é Redator Sênior e Diretor de Arte das revistas The Christian Science Journal e The Christian Science Sentinel.

 Fonte:  http://www.arautocienciacrista.com/arauto/articles/0810c.jhtml
Acesso em 03/03/2013

Sobre cienciacristabrasil

A Ciência Cristã ou Christian Science foi descoberta por Mary Baker Eddy em 1866, nas proximidades de Boston, MA, EUA. Baseia-se na vida, palavras e obras de Jesus Cristo. Ela é um movimento religioso global. Está aberta a todos no livro: CIÊNCIA E SAÚDE COM A CHAVE DAS ESCRITURAS, de autoria de Eddy.
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