Por amor à cura Por Warren Bolon

MATÉRIA DE CAPA

 

Da edição de outubro de 2003 dO Arauto da Ciência Cristã

“Aquilo sacudiu meu universo”. “Aquilo” foi o resultado de uma relação médico paciente. O “universo” era a atitude médica do então estudante de medicina, hoje renomado cardiologista e Prêmio Nobel da Paz, Bernard Lown.

O evento que sacudiu e ajudou a reformular o universo do Dr. Lown ocorreu durante uma ronda na clínica de pacientes externos do Hospital Peter Bent Brigham em Boston, no início da década de 1950. Descrevendo a parada junto ao leito de um paciente naquele dia, com seu mentor e modelo, Dr. Samuel Levine, Lown diz que Levine “entrou distraidamente. Estava se sentindo sob pressão, pois havia muitas visitas (outros médicos o acompanhavam)”.

“Levine disse: ‘Esta paciente tem ET’, querendo dizer estenose tricúspide. Os médicos sempre usam atalhos linguísticos.”

A paciente ouviu algo bem diferente. Lown conversou com ela logo depois. “Quando ele disse ‘ET’, a paciente interpretou como estágio terminal e entendeu que ela iria morrer naquele dia.”

“Foi uma experiência que você nem pode imaginar! Ela chegou sentindo-se razoavelmente bem. Ela estava com um sério problema cardíaco, [mas] não ia morrer naquele dia, nem mesmo naquele ano. ‘ET’. Foi como um golpe”, ele exclama, batendo o punho cerrado com força na mesa coberta de bibelôs.

“E pronto! Não pude fazer nada. Ela morreu [logo depois, naquele dia]. Aquilo simplesmente sacudiu meu universo. Então, tornei-me muito sensível às palavras.”

Em seu livro de 1996, A Arte Perdida de Curar, Lown escreve: “Eu conheço poucos remédios mais poderosos do que uma palavra carinhosamente escolhida”. Também observa, porém, que “as palavras são a ferramenta mais poderosa que o médico possui, mas as palavras, como uma espada de dois gumes, podem tanto mutilar quanto curar”. Durante uma entrevista com Lown na sua clínica em Brookline, estado de Massachusetts, pedi que explicasse um pouco mais o poder que as palavras têm para ajudar ou machucar.

“O poder das palavras me impressionou desde muito cedo. Vejo em mim uma contradição de tendências. Tenho certeza de que todo ser humano sente a mesma coisa. Por um lado, tenho amor pela ciência — pelo que é exato, e preciso, por ela declarar a realidade com honestidade, sem medo de encará-la de frente, quaisquer que sejam as conseqüências. Por outro lado, reconheço as limitações da ciência em termos das qualidades individuais e únicas do ser humano. Agora essas fronteiras estão sendo ampliadas e há a ilusão de que, em um dado momento, ‘saberemos tudo’. Creio que seja uma ilusão, porque o cérebro pode conhecer o cérebro, mas não pode compreender a mente. Há limites.”

Lown diz que percebeu há muito tempo que “o que nos define como seres humanos é a linguagem. A Palavra. E isso é captado na religião.” Ele comenta Fausto, de Goethe, (que cita o Evangelho de João): “ ‘Im Anfang war das Wort!’… Em grego é Logos, você sabe, ‘No princípio era o Verbo’, a Palavra de Deus.”

“Eu conheço poucos remédios mais poderosos do que uma palavra carinhosamente escolhida.”

“Creio que a Palavra tem muita força. Foi um golpe muito grande para mim, quando percebi o valor da palavra, porque antes eu a desprezava. ‘Vamos’. [ele dizia a seus colegas], ‘deixemos de lado essa coisa sem nexo, essa [ciência] fraca. Vamos lidar com o hardware e não o software.’ Como se o hardware tivesse algum significado sem o software.”

Durante a conversa de 45 minutos com esse médico que parece comunicar tanto com os olhos quanto com a voz, ele disse que a fome humana pelo significado de todas as coisas não é saciada pelo conteúdo dos livros de auto-ajuda. Essa fome humana é uma constante subjacente a tudo. Aquela que quer curar e a ignora, causa graves conseqüências. Para Lown, o software embutido na arte de curar incorpora tanto a inteligência, que se alcança por intermédio da experiência, quanto o amor, que se alcança ao fazer o bem, ao expressar o cuidado a uma pessoa. O amor é dado em forma de compaixão, respeito, paciência e interesse sincero pela vida de alguém, não só pelo corpo.

“O médico de Boston, Francis Peabody”, escreve Lown, “aconselhou que o segredo de como cuidar do paciente é interessar-se pelo paciente”.

Eis aqui um médico que pode não ser Patch Adams, mas que ri e fica sério com igual facilidade. Lown muitas vezes pede a seus pacientes que tragam uma boa piada para contar durante a consulta. E ele conhece o poder que o humor tem para desmanchar o medo.

Lown conta que um paciente era “super hipocondríaco” e tinha medo de sofrer um enfarto. No final de uma consulta “eu disse a ele: ‘Volte daqui a dez anos.’ Ele engoliu em seco: ‘Vou viver tanto tempo assim?’ Repliquei: “Se eu acreditasse que você não fosse viver tanto tempo, pediria que voltasse dentro de seis meses. Afinal de contas, preciso ganhar dinheiro!”

“O homem caiu na gargalhada. Sentiu-se bem com o que eu havia dito. E dez anos mais tarde, no dia exato, ele apareceu! Sem marcar consulta. Não precisara voltar.”

Foram tanto a amplitude de visão quanto os vislumbres específicos adquiridos durante os mais de dez anos que trabalhou com o Dr. Levine que inculcaram em Lown as “qualidades individuais e únicas” de cada pessoa, a singularidade de cada paciente como um ser individual. Sua compreensão da singularidade “provém da própria palavracura. Tratar é mais uma questão de rotina. É muito mais preciso. Focaliza-se em um órgão; você trata um problema no coração, um problema nos rins… A cura se dirige àquele ponto central de como um ser humano percebe, ou imagina, a doença.

Passei muitos anos tratando, até que finalmente também comecei a curar.

Tratar tem a ver com generalidades estatísticas: se você têm estes sintomas, é provável que tenha esta doença.

Tratar é um terreno bem mais definido do que curar. Existe um mapa. É direto, pode ser aprendido e gerenciado. Os jovens amam esse aspecto da medicina, pois é algo que podem dominar.

Curar tem a ver essencialmente com aquilo que não é estatística e que não pode ser generalizado da maneira como a ciência generaliza. Faz face ao fato de que todo ser humano é diferente em muitas maneiras.

Agora, como é que você chega a saber que a diferença de cada indivíduo é o problema que a cura sempre enfrenta? Você chega lá por intermédio da antiga arte de ser médico, que começa com o escutar. Se não se escuta, não se ouve. Ao não se servir da experiência ao escutar, não se ouve. Se não se escutar com empatia, não se ouve. Se se escutar com pressa, não se ouve.”

“Estou pensando em todos as habilidades que o médico adquire: há muito jargão, a linguagem em si; o que se deve e o que não se deve fazer; a psicologia, a patologia, a neuroendocrinologia, a neuropsiquiatria; não tem fim. Mas, creio que mais complicado ainda do que a genômica e a proteômica, ou qualquer coisa que seja, é o escutar.”

“Passei muitos anos tratando, até que finalmente também comecei a curar.”

Será que a arte de escutar pode ser cultivada, aprendida? “É aí que emerge o otimismo da vida. É possível mudar um ser humano. Então, essa arte pode ser aprendida. Mas requer uma certa atitude e a atitude do médico é a de querer ajudar. Se você quiser se tornar bem competente na reposição de válvulas cardíacas… porque se sente desafiado pela destreza técnica que isso requer, a meu ver essa não é a totalidade do que significa ser médico. Talvez minha opinião seja extrema. Ser médico significa procurar a diferença singular do indivíduo e aí está a maior recompensa da medicina, porque a partir do momento em que você encontra essa singularidade, você aprendeu bastante.”

O que impede a prática da arte de curar? Lown responde, descrevendo “uma perda de idealismo. A Faculdade de Medicina arranca da alma o idealismo. Faz do aluno um mini-cientista, [mas] não lhe ensina tudo sobre como ser médico”. O Dr. Lown está profundamente preocupado com o que vê como a industrialização da medicina.

“Se você faz uma angioplastia, recebe dois mil dólares. Se fica uma hora conversando com um paciente, recebe cem dólares. Você não precisa ser gênio para saber que dois mil dólares são vinte vezes mais do que cem dólares. Então, a sociedade vai me recompensar…muito menos se eu ficar conversando com o paciente.

É muito importante manter a visão que periodicamente expressa dinamismo social e mudança. A religião é um exemplo dessa visão. George Bernard Shaw disse: ‘O Cristianismo é pregado há 2.000 anos; já está na hora de alguém praticá-lo’. O que sustém [a religião] é uma visão. E por conseguinte, meu livro se torna um visionário, dizendo: ‘Veja, a cura é possível. Eu a estou praticando.’ E faço parte da cultura do inimigo, por assim dizer. Minha vida toda está entrelaçada com a cardiologia e a tecnologia. Desenvolvi toda uma gama de instrumentos, adotei remédios, mudei a maneira como os médicos tratam os pacientes. Não sou uma pessoa de fora, reclamando dos de dentro. Sou uma pessoa de dentro que reconheceu [nossas] falhas, falhas essas que são potencialmente perigosas para a saúde de toda uma cultura, não só para a medicina.”

Lown descreve a si mesmo como agnóstico, mas diz: “Agnóstico não quer dizer que eu não reconheça as dimensões espirituais. É um erro supor que a espiritualidade só pertence à religião”. Conheceu pessoas que se identificavam muito com uma religião, mas “que nunca pensaram em nada que é espiritual, embora fossem grandes fiéis. Iam à igreja, à sinagoga, oravam, mas não tinham espiritualidade. A espiritualidade é uma dimensão a ser encontrada na vida e, ao viver uma vida plena, é impossível imaginá-la sem a espiritualidade.”

A maneira como Lown aborda a cura — e aqui me refiro mais ao que está em seu coração, do que àquilo que ele conhece sobre a ciência desse órgão — lembra muito os ensinos básicos de religião: Fazer aos outros o que desejamos nos façam… Amar o próximo como a si mesmo… e certamente um provérbio citado por Jesus, “Médico, cura-te a ti mesmo”. Será que ele incorpora conscientemente esses princípios da religião em seu trabalho?

“Certamente. Não tenho vergonha de dizê-lo. [Entretanto,] creio que a religião tem dois aspectos. Um tem a ver com o anseio espiritual pelo significado das coisas, e isso é muito profundo”. Outro, infelizmente, ele acredita ser a exclusividade.

Diz Lown que essa exclusividade, pessoas religiosas promovendo sua “marca” como sendo o sistema de fé superior, tornou as religiões “destruidoras da diversidade humana e derramou mais sangue, provocou mais assassinatos, perseguição, terrorismo e tortura do que os seres humanos merecem”.

Não seria justo chamar isso de prática incorreta da religião? “Sim! Creio que essa é uma ótima frase: ‘a prática incorreta da religião’, só que não há como adjudicar essa prática incorreta!”

“A espiritualidade é uma dimensão na vida e ao viver uma vida plena, é impossível imaginá-la sem a espiritualidade”

Em 1985, Lown aceitou o Prêmio Nobel da Paz em nome da “Associação Mundial dos Médicos Contra a Guerra Nuclear”, a organização da qual é co-fundador. Perguntei se ele vê conexões entre a arte de curar corpos e mentes e a arte de curar rixas entre nações. Sua primeira resposta é um firme “Não”. Mas, depois de uma pausa, acrescenta: “O que é igual é o conceito…da existência de maiores responsabilidades do que aquelas junto ao leito, o reconhecimento de que, para que [toda a sociedade] goze de boa saúde, você precisa enfrentar a causa mais importante da falta de saúde [individual], que é a pobreza.”

“O racismo [também] causa doenças. Se você quiser ajudar as pessoas, tem de se opor e lutar contra o racismo… Tanto a Escola de Saúde pública de Harvard como outras demonstraram que, se há desigualdade em uma sociedade, ninguém fica bem [em termos de saúde], nem os ricos nem os pobres. Por isso, se você quiser agir corretamente com seus pacientes, terá de agir corretamente com toda a sociedade.”

Em certo momento, o médico vira entrevistador. “Você sabe quantos anos eu tenho?”, ele pergunta. Essa é fácil, pois eu tinha encontrado um boletim de notícias no saguão da clínica, com os seguintes dizeres na capa: “Reflexões aos 80”. Esse médico bom, porém, aparenta ser vinte anos mais novo. “Tenho oitenta e um anos e meio, mas estou praticando a medicina. E a majestosa grandiosidade para mim é o fato de que constantemente faço descobertas sobre como lidar com um ser humano que está com um problema.”

Antes que eu me vá, o Dr. Lown me mostra a edição em alemão de seu livro. Ele admira muito a ilustração na capa. O designer usou uma reprodução do “Auto-retrato com o Dr. Arrieta” de Francisco Goya, no qual o artista é o paciente, recuperando-se de uma doença súbita (como de fato aconteceu com Goya), tendo o braço do médico carinhosamente colocado em volta de seus ombros.

É um testemunho visual do poder sanador da ternura, da mansidão, do altruísmo, de uma vida dedicada a cuidar do próximo.

 

Fonte: http://pt.herald.christianscience.com/shared/view/2cwzwts7h92?s=f

Acesso em> 07/04/2013

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Sobre cienciacristabrasil

A Ciência Cristã ou Christian Science foi descoberta por Mary Baker Eddy em 1866, nas proximidades de Boston, MA, EUA. Baseia-se na vida, palavras e obras de Jesus Cristo. Ela é um movimento religioso global. Está aberta a todos no livro: CIÊNCIA E SAÚDE COM A CHAVE DAS ESCRITURAS, de autoria de Eddy.
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