A missão que Deus tem para nós

Ada Pacilio

Da edição de agosto de 1991 dO Arauto da Ciência Cristã

 

De Todas As tiras em quadrinhos publicadas nos jornais, uma de minhas personagens favoritas é a Mafalda. Lembro-me de uma vez em que ela aparece dizendo ao amigo Filipe: “Olhe só o que diz aqui: ‘Conhece-te a ti mesmo.’ Que você acha disso, Filipe?” “Acho ótimo!” responde ele. “Sabe o que mais? De agora em diante vou colocar isso em prática! Sim, senhor! Não vou parar até me conhecer, até saber quem sou realmente!” Então, pára um pouco e exclama: “Ó céus! E se eu não gostar de mim mesmo?” 1

Essa é uma pergunta importante que diz respeito a cada um de nós. Todos queremos conhecer melhor a nós mesmos, isto é, entender quem realmente somos. Na Bíblia, no Velho Testamento, há a história de um homem que conhecia a si mesmo. Ele amava tanto sua identidade, isto é, sua identidade espiritual de filho de Deus, que sempre pensava e agia em conformidade com ela, sempre lhe era fiel, apesar dos enormes desafios que teve de enfrentar. Esse homem era José.

Antes dos vinte anos, a inveja e o ciúme que os irmãos tinham dele, tentaram despojá-lo de todas as qualidades espirituais que ele expressava. Poderíamos dizer que essas qualidades eram simbolizadas pela túnica que o pai lhe havia dado. A inveja dos irmãos tentou esconder as qualidades de José, primeiro colocando-o numa cisterna, um fosso, e depois vendendo-o como escravo para trabalhar em outro país.

Calce as sandálias de José, por um segundo apenas, isto é, ponha-se no lugar dele. Você foi atacado por seus irmãos, foi colocado num fosso e depois foi vendido como escravo. Está sendo levado para longe de seu país e nem sabe aonde irá parar no final.

Como se sente? O que será que José sentiu? Medo, angústia, desespero, revolta? Tais sentimentos teriam sido normais. Não deve ter sido fácil superá-los. Mas ele conseguiu, expressando suas qualidades espirituais. Conseguiu ser fiel à sua identidade espiritual e, sendo fiel a si mesmo, ele estava sendo fiel a Deus, estava servindo a Deus.

Eu acredito que esse foi o segredo da vitória de José sobre a adversidade, muito embora deva ter exigido dura luta de sua parte. Nenhuma circunstância humana impediu-o de expressar suas qualidades espirituais. Em outras palavras, nada o desviava de servir a Deus. Tudo quanto fez, foi para servir a Deus, mesmo quando parecia que estava servindo seu patrão. Em vez de sentir-se escravo, ele se sentia livre, livre para servir a Deus expressando as qualidades que Ele lhe dera. Seus irmãos podiam tirar-lhe a túnica, mas não podiam despojá-lo de suas qualidades espirituais, que permaneciam vivas e constantemente ativas em sua consciência. A humildade, o zelo e a sabedoria caracterizavam tudo quanto fazia. Essas qualidades eram uma luz permanente em seu pensamento e brilhavam com fulgor, tanto que seu patrão egípcio, Potifar, designou-o superintendente de sua casa.

José havia progredido. Haveria, porém, outro desafio a ser vencido. A sensualidade da mulher de Potifar levou-a a tentar seduzir o rapaz. Ceder teria sido o equivalente a renegar sua pureza e integridade. Ela agarrou suas vestes e, a fim de fugir dela, José deixou as vestes para trás. Mais uma vez, estava sendo despojado de uma vestimenta, mas não de suas qualidades espirituais. Acusado falsamente pela mulher de Potifar, ele foi lançado à prisão.

Como o futuro deve ter parecido sombrio! Como deve ter sido horrível a sensação de desamparo frente à injustiça e à calúnia! O que seria dele agora? Passaria ele o resto da vida sofrendo castigo por algo que não havia feito?

Vemos como a inveja e o ódio no pensamento material, a mente mortal, tentaram mais uma vez esconder as brilhantes qualidades de José. A cela de uma prisão não é lugar onde a luz possa ser vista por muitos. Todavia, pode um raio de sol ficar escondido num aposento? Ao contrário, sua simples presença o ilumina e o aquece. E foi exatamente isso o que aconteceu. A angústia, a frustração, a amargura e a revolta pela injustiça são como paredes mentais que poderiam ter escondido a luz de José. Mais uma vez, porém, ele conseguiu deixar sua luz brilhar servindo a Deus, que o sustinha, tanto assim que o carcereiro deixava nas mãos de José o cuidado e o controle dos presos.

Durante o tempo que passou na prisão, ele pôde usar suas qualidades espirituais de discernimento e compreensão. Isso fez com que fosse chamado a interpretar os sonhos de Faraó. Como este aprovasse sua interpretação, José foi nomeado governador do Egito e passou a ser o segundo dignitário do reino. Essa nomeação possibilitou a José, pelas qualidades espirituais que expressava, salvar da fome toda a nação e muitas pessoas de fora.

Quando fazemos uma retrospecção da história de José, vemos que tudo serviu de preparação para uma missão elevada. Durante todos os anos passados a serviço de Potifar e na prisão, ele estava sendo preparado para a tarefa maravilhosa de servir a humanidade. Todo aquele tempo, as qualidades espirituais estavam não só sendo expressas mas, ao serem usadas, estavam também amadurecendo.

Talvez você esteja se perguntando: por que pensar sobre um homem que viveu há tantos milhares de anos? O que tem essa história a ver conosco, hoje? As intenções, motivos e objetivos humanos, sob a máscara da modernidade, são ainda praticamente os mesmos, apesar dos avanços tecnológicos, como a cibernética e a exploração espacial.

Hoje em dia, o ciúme e a inveja ainda procuram impedir o progresso daqueles que são bem sucedidos em qualquer campo. Isso é comum na experiência humana. Não podemos ser ingénuos nesse ponto. Mas a Ciência Cristã nos ensina que através do sentido espiritual ou, usando as palavras da Sra. Eddy em seu livro Unity of Good, através de “um senso do Espírito”, podemos discernir o bem espiritual, que está sempre se desdobrando em nossa experiência.

A Ciência Cristã nos ensina a transformar cada obstáculo em degrau ascendente rumo a nosso progresso espiritual. Precisamos, entretanto, estar alerta contra tais obstáculos. A Sra. Eddy diz em seu livro Miscellaneous Writings: “As portas do magnetismo animal se escancaram para deixar entrar o erro, às vezes exatamente na hora em que te aprestas a entrar no gozo de teu labor e, com louvável ambição, estás prestes a cantar hinos de vitória pelos triunfos.” No parágrafo seguinte, ela continua: “As portas que esse elemento animal abre com violência são as da rivalidade, do ciúme, da inveja e da vingança. Deves precaver-te contra a força de vontade mortal que quer se impor.”

Nada pode impedir que sejamos fiéis a Deus e de sermos aquilo que Ele nos criou para ser. Nada pode nos impedir de servir a Deus, quando compreendemos que somos inseparáveis dEle e de Seu amor.

Está você preocupado com seu futuro, como José devia estar quando foi preso? Diz você que nosso país não oferece oportunidades em número suficiente e é por isso que muitas pessoas com diploma universitário são obrigadas a trabalhar como motoristas de táxi, ou como secretárias? Lembre-se de José. Certamente ele não era o único escravo acusado injustamente e colocado no cárcere, devia haver outros mais. Mas José foi o único a sair de lá para cumprir uma missão para a qual estivera se preparando.

Cada um de nós tem uma missão, missão determinada por Deus. Talvez você não saiba ainda qual é. Mas  um jeito de preparar-se para ela. Não gosta de seu emprego atual? Não se sente à vontade com seus colegas de trabalho? Use suas qualidades espirituais. Deixe que elas brilhem. Onde quer que esteja, o que quer que faça, você está sendo treinado. Está sendo preparado para uma missão exclusivamente sua, determinada por Deus. Cumpra-a com alegria e gratidão e essa luz abençoará seu trabalho e as pessoas ao seu redor. Você nem imagina o crescimento espiritual e satisfação que encontrará.

Há ainda outro paralelo com a história de José. As novas gerações estão expostas a novas formas de opressão. São bombardeadas de todos os lados pela sensualidade, pornografia, moralidade permissiva e pressão por parte dos colegas para fazer o que os outros fazem. É preciso coragem moral para firmar-se na integridade. É preciso coragem moral e auto-respeito para ser um indivíduo, para decidir por si mesmo e não de acordo com aquilo que a maioria acha certo.

Atualmente, precisamos enfrentar problemas na educação, no trabalho, na comunidade, no país e no mundo, além dos desafios pessoais. Preocupamo-nos com injustiças sociais, miséria, fome e ameaça nuclear, conflitos e guerras. Como você pode ajudar a pacificar esses conflitos? Para começar, pode se esforçar em sua própria vida para trazer paz às relações familiares, com seu marido ou esposa, seus pais, irmãos, avós. Expressemos com nossa família as qualidades que gostaríamos fossem expressas pelos governos dos países em conflito: tolerância, respeito mútuo, boa vontade. Podemos começar em nossa casa a estabelecer a paz mundial. Essa é a única forma de começar. Não depende dos outros. Depende de você e de mim, se quisermos deixar nossa luz brilhar.

Em realidade, precisamos de cura. Mas o que isso significa? Cura inclui mudança na maneira de pensar, na minha, na sua, não na dos outros. Não são as circunstâncias que devem mudar, mas sim nossa maneira de pensar a respeito delas. É por isso que a cura é possível onde quer que você esteja, qualquer que seja sua atividade. A única maneira de fazer o mundo melhorar é sermos melhores: melhores filhos, melhores cônjuges, melhores irmãos, melhores estudantes, melhores cidadãos. Seremos capazes de fazer isso à medida que compreendermos a pureza espiritual e a perfeição que Deus deu a cada um de nós.

Se essa parece uma tarefa difícil, lembremo-nos das palavras de Cristo Jesus: “Eu nada posso fazer de mim mesmo.” Se até Jesus admitia não poder fazer nada sem Deus, é melhor que nós nem tentemos! Paulo diz em sua carta aos Filipenses: “Porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade.” Que alívio é saber que a atividade sanadora do Cristo vem diretamente de Deus e está à disposição do universo todo! Tanto a vontade de mudar nosso pensamento, como a própria mudança em si, se originam em Deus. Ele é o único sanador na realidade.

Voltemos à história de José. O que foi que lhe possibilitou expressar a sabedoria que salvou da fome várias nações? Foi o conhecimento que ele tinha de quem ele realmente era e sua inquebrantável fidelidade a seu verdadeiro ser. Nada o impedia de ser ele mesmo. Nada, absolutamente nada, conseguia fazer com que ele fosse menos do que honesto, humilde, amoroso. A cada passo, sua influência sobre o meio foi benéfica, ajudou e abençoou outros. Suas qualidades espirituais o mantinham no mais alto nível, onde quer que estivesse, seja a serviço de Potifar, seja na prisão ou como vice-rei do Egito, porque em realidade, ele estava o tempo todo servindo a Deus.

Essa é também nossa missão, alegremo-nos em cumpri-la.

1 Joaquin Salvador Lavado (Quino), Mafalda, 4 (Buenos Aires: Ediciones de la Flor, 1987).

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Sobre cienciacristabrasil

A Ciência Cristã ou Christian Science foi descoberta por Mary Baker Eddy em 1866, nas proximidades de Boston, MA, EUA. Baseia-se na vida, palavras e obras de Jesus Cristo. Ela é um movimento religioso global. Está aberta a todos no livro: CIÊNCIA E SAÚDE COM A CHAVE DAS ESCRITURAS, de autoria de Eddy.
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